Lendas e seu fundo histórico
De um modo geral, os grandes personagens do passado que chegaram a ser populares e, de maneira especial, os santos, têm um perfil mais ou menos lendário. É que o povo fica encantado com as anedotas e as crônicas sensacionalistas. Os pregadores de outros tempos souberam explorar esses sentimentos, narrando ferros extraordinários, e depois o povo os transmitia de boca em boca, inclusive acrescentando-lhes novos detalhes, até que se foram formando as lendas:
Pois bem, as lendas religiosas são as pregações do povo simples. Podem fazer sorrir aos doutos, escandalizar os pouco cultos e criar embaraço para os historiadores. Mas elas expressam os grandes valores humanos e religiosos, e têm um enorme poder de persuasão. As lendas hagiográficas merecem, pois, todo o respeito que se deve à fé, à poesia e ao amor do povo a Deus.
Como santa popular que era, Rita de Cássia também é rica em lendas. Talvez essas lendas não reflitam fatos que realmente tenham ocorrido. Mas não há dúvida de que transmitem com extraordinária eficácia a fisionomia autêntica da santidade de Rita. Relembremos as mais notáveis e conhecidas, separando nelas a fantasia e o núcleo histórico.
AS ABELHAS E A MENINA
Esta formosa e doce lenda aparece nos testemunhos mais antigos. Refere-se à primeira infância de Rita. Seus pais a puseram no berço, à sombra de uma árvore, enquanto ceifavam erva e cortavam lenha para o inverno. De repente, viram voar ao redor do berço um enxame de abelhas brancas. Algumas delas iam pousando nos lábios da menina. Entravam e saíam de sua boca, sem causar-lhe nenhum mal.
Esta preciosa cena bucólica foi embelezada, ou graciosamente alterada com outro milagre. Um camponês que se havia ferido no dedo com a foice foi imediatamente curado quando tentava espantar as abelhas, para que não picassem a menina. Estupefactos diante do milagre, os pais de Rita e o ceifeiro abraçaram-se, ergueram os olhos para o céu e louvaram o Senhor.

FUNDO HISTÓRICO – Na época de nossa Santa, havia muitos apicultores nos campos próximos a Cássia. Hoje em dia, inclusive, podem-se ver nos próprios muros do mosteiro agostiniano alguns buracos em que vivem as chamadas “abelhas de Santa Rita”. É certo que as abelhas não tem nada a ver com ela, mas estão ali desde o século XVII. São apenas uma simpática recordação de sua santidade, agradável a Deus e mais doce que o mel.
Mas permanece algo muito mai importante: por “abelhas” ou “abelhinhas” de Santa Rita são chamadas hoje as pequenas órfãs que residem em um centro contíguo ao mosteiro e que são cuidadas e educadas com a herança de santidade que Rita deixou.

OS SANTOS PROTETORES
Rita ficara viúva. Queria tornar-se freira. Por três vezes apresentou-se ao mosteiro, pedindo para ser admitida, mas nas três vezes foi rejeitada. Estando uma noite em oração, em um monte próximo de Roccaporena, seus três santos protetores – São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino – anunciaram-lhe o cumprimento de seus desejos. E, de fato, os três protetores conduziram-na milagrosamente pelos ares, até Cássia, e a introduziram no mosteiro, embora as portas estivessem fechadas. Na manhã do dia seguinte, as freiras encontraram-na no coro. Quando foi interrogada, Rita contou o que acontecera. As irmãs viram nisso a mão de Deus, e ela foi admitida.
FUNDO HISTÓRICO – São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino eram muito venerados nas igrejas agostinianas de Cássia. Provavelmente, Rita tinha muita devoção a eles desde menina. A esses três santos ela confiaria seu ardente desejo de consagrar-se ao Senhor. Pediria a eles que ajeitassem as coisas para ela: que sua família se reconciliasse com a família dos assassinos de seu marido, de modo que ela pudesse tornar-se freira. E, com efeito, a paz não tardou a restabelecer-se. Este tinha sido o “milagre”.
A PARREIRA DA OBEDIÊNCIA
É uma das lendas mais simpáticas e conhecidas. Era normal, nos conventos, pôr-se à prova as aspirantes. A abadessa mandou que Rita regasse, todos os dias, um sarmento seco. Ela obedeceu fielmente. Na realidade, Rita não dava atenção ao lado material do que fazia. Podia ser uma coisa ou outra, importante ou humilde, razoável ou não; para ela, dava no mesmo. A única coisa que lhe interessava era a motivação, o motivo pelo qual agia; e, neste caso, era por obediência à superiora e por amor a Deus.
Aconteceu que, milagrosamente, o sarmento reviveu e converteu-se em uma parreira fecunda, que ainda hoje continua dando frutos. A abadessa pôde constatar que a uva era boa e, sobretudo, que eram sólidas as virtudes da noviça.

FUNDO HISTÓRICO – Esta lenda talvez tenha se formado a partir de umas pinturas antigas, quase do tempo da Santa, e que chegaram até nossos dias. Em uma delas, vê-se uma parreira, junto à porta principal do mosteiro. As palavras que explicavam o simbolismo estavam tão deterioradas que a imaginação popular começou a fantasiar. Pensariam, então, na história clássica do velho monge que fincou seu bastão na terra e mandou que o noviço o regasse até que florescesse, como de fato ocorreu, como prêmio à obediência do noviço.
No entanto, a parreira que atualmente existe no horto do mosteiro, e que é exibida aos peregrinos como sendo a do milagre, não tem nada a ver com a vida de Santa Rita.
A ESCADA DO CÉU
Contam que, na noite seguinte à sua profissão religiosa, Rita teve a seguinte visão. Assim como a Bíblia conta sobre o patriarca Jacó, ela viu uma escada. Uma de suas extremidades chegava ao céu; a outra pousava sobre a terra. Pela escada subiam e desciam os anjos. No alto, estava o Senhor. O primeiro degrau simbolizava a obediência; o segundo, a pobreza; o terceiro, a castidade. E seguiam-se todas as virtudes. Por esses degraus Rita teria subido até Cristo.
FUNDO HISTÓRICO – Com essa lenda desejava-se expressar o rápido progresso espiritual de Santa Rita, que, antes de professar como religiosa, já tinha alcançado todas as virtudes e atingido a união mística com Cristo.

ROSAS NO RIGOROSO INVERNO
Aquele era o último inverno da vida de Rita, Vários parentes e amigos de Roccaporena, sabedores de seu estado grave, subiram para visitá-la. Rita recebeu-os sorridente e agradeceu-lhes a visita. Depois, deu-lhes importantes conselhos espirituais. Ao despedir-se, uma prima sua fez-lhe uma pergunta de cortesia: “Rita, queres alguma coisa?” E esta, para surpresa dos presentes, respondeu: “Sim, traze-me uma rosa do jardim de minha casa.” Todos acharam que ela estava delirando. Estavam no mês de janeiro, não parava de nevar, não podia haver rosas. No entanto, a prima prometeu atender ao pedido dela.
De volta a Roccaporena, foi imediatamente ao jardim e ali, em um roseiral semicoberto de neve, para surpresa de todos, encontrou uma rosa perfumada e de cores vivíssimas. Cortou-a e levou-a para a enferma. Rita deu graças a Deus e, depois de cheirá-la, entregou-a às freiras; estas não se cansavam de admirá-la, passando-a de mão em mão. A cela, que durante quinze anos havia cheirado tão mal, encheu-se de suave e celestial fragrância.
FUNDO HISTÓRICO – Esta parece ser uma lenda baseada em algum fato real e que depois foi adornado com detalhes fantasiosos. Nesse caso também se poderia dizer: quem quiser que acredite… A vida de Santa Rita começava com a lenda das abelhas e termina com a da fragrância da rosa. Sem dúvida não falta uma longínqua inspiração em São Paulo, que chama a santidade de “o bom odor de Cristo” em nós.
Como sabe o amável leitor, todos os anos, no dia 22 de maio, na festa de Santa Rita, benzem-se e distribuem-se rosas entre os devotos. Muitas pessoas doentes tomam chá de rosas de Santa Rita, enquanto pedem ao Senhor, por intermédio da Santa de Cássia, a cura de seus males.
OS SINOS QUE TOCAM SOZINHOS
Outra piedosa lenda conta que, na morte de Santa Rita, repicaram gloriosamente os sinos do mosteiro, sem que ninguém os tocasse. O rosto da Santa, deformado pela doença e pelas penitências, recobrou sua formosura anterior; o cheiro insuportável que o estigma exalava transformou-se em perfume celestial, e a cela resplandeceu como o sol.
FUNDO HISTÓRICO – Rita morreu, tal como havia vivido, santamente, e assim entrou na glória do Senhor. O repique dos sinos foi a proclamação jubilosa daquela morte santa. Não importa, pois, quem tenha puxado a corda, se um anjo ou uma freira entusiasmada com a santidade da falecida.
Trecho do livro Rita de Cássia, da série “Nossos Santos Agostinianos”, por José Javier Lizárraga, OAR